Sobreviver é um emprego a tempo inteiro

Teatro Efémero

Programa de Acolhimentos do Chão de Oliva_2026

Casa de Teatro de Sintra

SOBREVIVER É UM EMPREGO A TEMPO INTEIRO
Teatro Efémero

DATAS: 11 e 12 setembro | sexta e sábado_21h30
DURAÇÃO APROX.: 90 min

Reservas: 219 233 719 ou reservas@chaodeoliva.com (com 48 horas de antecedência)

Bilhetes à venda em TicketLine.pt

Sinopse

Um T0 que pode ser um estúdio, que pode ser uma sala de uma consulta de psicologia, que pode ser um quadrado onde habitamos e continuamos a sonhar. Um sonho cada vez mais difícil de se cumprir. Ser jovem em Portugal. O sonho de conseguir sair da casa dos pais. As dificuldades, as angústias, os trabalhos part-time e até os cereais ao jantar, para se poupar algum. É da angústia e do absurdo que é a vida que floresce este texto, esta ideia. Um vómito. Absurdo e sagaz, cruel e irónico. Um monólogo sobre a dificuldade de sobreviver.

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Sobre o espetáculo

sobreviver é um emprego a tempo inteiro nasce da vontade de olhar para uma geração que aprendeu a sobreviver antes de conseguir viver.
Partimos de uma realidade profundamente reconhecível: jovens altamente qualificados que acumulam empregos precários, adiam projetos de vida, permanecem em casas demasiado pequenas e convivem diariamente com a sensação de que estão permanentemente aquém daquilo que imaginaram para si. No entanto, não quisemos construir um espetáculo sobre estatísticas ou sobre a precariedade enquanto conceito. Interessava-nos aproximarmo-nos da intimidade de quem vive essa realidade, procurando o humor, o absurdo e a poesia que também existem dentro dela.

O espetáculo acompanha Jorge, uma personagem que grava pequenos diários em vídeo para enviar à sua psicóloga. A câmara torna-se, por isso, um dispositivo dramatúrgico central. Quando grava, Jorge procura organizar o pensamento, relativizar as suas dificuldades e transformar episódios banais em narrativas quase cómicas. Existe sempre uma tentativa de controlar o discurso, de parecer mais leve, mais funcional, mais otimista do que realmente se sente. Mas, nos momentos em que a gravação termina, o espetáculo revela aquilo que permanece invisível: o silêncio, a solidão, o vazio e as pequenas estratégias de sobrevivência que nunca chegam a ser verbalizadas.

Este permanente jogo entre aquilo que escolhemos mostrar e aquilo que escondemos aproxima-se da forma como hoje construímos a nossa própria imagem. Também por isso, a comunicação do espetáculo prolonga-se para fora da sala através de uma conta de Instagram da própria personagem, onde Jorge continua a existir como se fosse uma pessoa real. O universo ficcional invade o quotidiano e dissolve a fronteira entre palco e realidade, permitindo ao público acompanhar uma personagem que continua a viver mesmo quando o espetáculo termina.

A dramaturgia acompanha esta lógica. O espetáculo não constrói uma narrativa linear nem procura conduzir o público até à resolução dos conflitos da personagem. Pelo contrário, apresenta fragmentos de dias, pequenas parcelas de uma vida quotidiana que observamos como quem encontra páginas soltas de um diário ou vídeos dispersos numa galeria de telemóvel. Entramos e saímos desses momentos sem conhecer necessariamente o que aconteceu antes ou depois. Tal como acontece na vida, nem todas as histórias têm conclusão, nem todos os problemas encontram resposta. Interessa-nos esse estado de suspensão, onde sobreviver se torna uma sucessão de dias aparentemente banais que, acumulados, revelam a dimensão da experiência humana.

Esta estrutura fragmentada aproxima-se também da forma como hoje construímos memória e identidade. Vivemos através de pequenos registos, fotografias, vídeos, mensagens e publicações que nunca contam a história inteira. Também por isso, o universo do espetáculo prolonga-se para fora da sala através de uma conta de Instagram da própria personagem. Jorge continua a existir para além da representação teatral, permitindo que a ficção invada o quotidiano e que o público acompanhe apenas mais alguns fragmentos da sua existência. Nunca o suficiente para o conhecer totalmente.

A cenografia materializa esta condição. Todo o espaço cénico corresponde a um pequeno T0, construído de forma realista, mas integralmente revestido pela mesma tonalidade de amarelo: paredes, chão, mobiliário, cama, cadeiras e objetos confundem-se numa única massa cromática. A escolha de uma cor intensa e quase artificial contrasta deliberadamente com o estado emocional da personagem. O amarelo, frequentemente associado à energia, ao entusiasmo ou à felicidade, transforma-se aqui numa presença opressiva, excessiva e inquietante. Quanto mais vibrante é o espaço, maior parece ser o esvaziamento interior de Jorge.
Também as reduzidas dimensões da cenografia são determinantes. O apartamento surge como uma extensão física do estado psicológico da personagem: um lugar onde se trabalha, se dorme, se come, se sonha e se falha. Um espaço demasiado pequeno para conter uma vida inteira. Procuramos que o público permaneça muito próximo desta realidade, quase dentro do apartamento, partilhando a sensação de confinamento e de claustrofobia que acompanha a personagem ao longo do espetáculo.
Entre o humor e a melancolia, entre o absurdo e a vulnerabilidade, o espetáculo procura construir um retrato profundamente contemporâneo de uma geração que continua a acreditar no futuro, mesmo quando esse futuro parece estar constantemente adiado.

FICHA ARTÍSTICA e TÉCNICA

Texto: Miguel Moisés e Carolina Figueiredo
Encenação: Miguel Moisés
Interpretação: Artur Dinis
Assistência de encenação, espaço cénico, figurinos e design e merch: Carolina Figueiredo
Desenho de Luz e Operação Técnica: Diogo Graça
Montagem cenográfica: Carolina Figueiredo e António Bartolomeu
Fotografias e vídeo: Ana Zayara Coelho e Rafael Valentini
Produção Executiva: António Bartolomeu
Apoios: Câmara Municipal de Sintra e FORNO – Espaço Cultural

Programa de Acolhimentos Chão de Oliva 2026

Direção de Produção: Nuno Correia Pinto
Produção Executiva: Nisa Eliziário
Secretária de Apoio à Direção e Produção: Cristina Costa
Operação Técnica: Ton Bonassa
Assistência Geral e comunicação: Gonçalo Pereira
Bilheteira: Paula Malhado
Frente de Sala: Miriam Lopo
Direção artística Chão de Oliva: Nuno Correia Pinto, Paula Pedregal, Susana C. Gaspar